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Mostrando postagens com o rótulo Crônicas

Amor, coisa de amadores

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Pagar as contas em dia, fazer reservas para o futuro, votar na reunião do condomínio, presidir a associação do bairro, ser o melhor aluno da turma, o filho exemplar, o pai de família, o homem de bem, gente importante. Fazer fortuna. Isso é para os profissionais. Agora o amor, desse só entendem os amadores.

Nathanael Alves: o pássaro que no nos salvará da bala

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Um cronista que decifrou as entrelinhas dos fatos como poucos

Os perigos do pão

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Rosalinda largou do trabalho às dezoito e cinco e desceu pra estação correndo. Da Lima Mindêlo ouviu rezando pelo improvável o escândalo dos trilhos, acelerou o passo e quase caiu antes de ter certeza ao virar na Sanhauá de que era mesmo seu tempo partindo. O próximo trem só dali a quarenta minutos. Os meninos estão sem janta e Evilênio sem Rosa. A casa deve estar uma bagunça, a pia entupida de pratos e o balde cheio de roupas.

Geraldo: o único homem capaz de deter o Barcelona

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Conheça a história desse que domina como ninguém a arte de vencer os invencíveis

Nada a temer nos corações dos meninos, dos amantes e das mães desesperadas

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O José Américo é um deserto de gente. Terra arrasada, com escombros por toda parte, o lixo mostrando a direção do vento ou seguindo o fluxo da água, a depender da estação. O chão rasgado exige calma. Mas é difícil achar quem tenha. À noite, sob aquela fotografia amarelada, entrecortada por tantos vazios de luz, qualquer movimento é um perigo. Os preconceitos de defesa recomendam que nem saia. Se estiver na porta, que entre. Quando não for possível, corra. Mas há quem fique. Quem passeie. Quem não esteja nem aí.

Técnica para deletar memórias inúteis e liberar espaço no cérebro

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Isso é importante, isso é necessário

Quem aperta o gatilho não é quem dispara a bala

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Em meio às revoltas que estão acontecendo em São Paulo e já começam a ganhar força no Rio de Janeiro, disparar minhas balas contra os policiais, sem dar nome aos bois, é fazer a mesma coisa que os telejornais

Menina dos olhos

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Mesmo que, de tão igual, sua diferença não se mostrasse mais que a indiferença de quem passava e lhe fazia vista grossa, ela parecia não se importar com quase nada, sempre bastante segura de si. 

Os Pinheirinhos de João Pessoa/PB

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Foto: GeoNando (www.flickr.com/daveiga) Sempre brilhante, minha amiga Jana deixou um comentário no meu texto “ Um habeas corpus para entrar” que, para mim, ficou melhor que o próprio texto. E por isso destaco aqui: Poxa, brilhante, Simão! Pinheirinho é um exemplo triste da cruel realidade que a especulação imobiliária e o latifúndio tem desenhado no país. Em João Pessoa, não falta muito para que se aplique este mesmo esquema. Como é o caso da comunidade Porto do Capim e da Penha, a primeira "dará" lugar a um Porto Turístico e a segunda a um Resort monumental. Não podemos esquecer que o São José nasceu desta mesma situação. Os primeiros habitantes viviam tranquilos na Praia de Tambaú e foram exortados para aquela parte da cidade em nome da modernização da cidade, simbolizada pelo Hotel Tambaú. O restante dos moradores vieram do interior do estado em busca de uma vida melhor. No São José, o Estado só passa de vez em quando, a maior parte das vezes para dar cacete...

Eduardo Campos: tão perto e tão longe

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"Há dois grandes circos armados por Deus: a vida e a morte. Os que têm fé afirmam que o da morte é limpo, asseado. Já a realidade é uma velha atriz cansada, com a maquilagem agressiva e a mania de dar más notícias”

Talvez Paulo Coelho explique

Em meio aos assuntos e acontecimentos cada vez mais tensos e polarizados que têm colocado o senso de opinião do brasileiro para funcionar no modo 24h/24h nos últimos meses, eu tenho preferido esperar um pouco antes de dizer qualquer coisa sobre qualquer coisa. Leituras dos fatos apaixonadas, no calor do primeiro beijo, correm grande risco de serem frágeis e rasas, simplesmente apaixonadas. Por isso mesmo preferi esperar – ler, ouvir e refletir – antes de escrever sobre o caso do cinegrafista Santiago Andrade, morto em um protesto no Rio de Janeiro, após ser atingido por um rojão disparado por um manifestante. Li dezenas de textos, mensagens indignadas no Facebook, fotos de redações inteiras fantasiadas de black blocks do bem (sic) para demonstrar luto (sic), editoriais, longas reportagens. Se não fosse sobre uma tragédia, eu diria até que foi a redenção da função de repórter cinematográfico, o herói de todas as edições dos telejornais, o cara que ninguém vê nem presta atenção em se...

A ditadura da maioria na democracia das vassouras carecas

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Foto: Rafael Freire Vinha chegando ao meu prédio agora há pouco e vi uma movimentação um tanto intensa no saguão onde normalmente acontecem as reuniões de condomínio. Mas, nada demais, até uma moradora me perguntar se eu votaria pela saída ou pela permanência. Eu, sem sequer saber que havia uma eleição, perguntei do que se tratava. E a senhora, com aquele polimento de quem quer ganhar um eleitor, me disse: “é para destituir o síndico”. Com a clássica de sempre (para quando vem alguém com um abaixo-assinado absurdo daqueles que, sem jeito, você tem que dizer não), respondi: “eu moro de aluguel, quem vota é o proprietário. Desculpe”. Parece desinteresse pelo nível político mais próximo de mim. Mas não é, simplesmente. Confesso que, com tudo que resolvi me ocupar no lado de fora do muro, sobra pouco tempo e paciência para as brigas dos meus vizinhos. Mas o pior de tudo é que, normalmente, no lugar das proposições sempre preferem o teatro. Bem, mas não é exatamente isso que vem ao caso, ag...

A última frase

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A última vez em que usei agenda foi no dia 26 de novembro de 2010. Na primeira linha, um rabisco quase ilegível que, hoje, já leio com dificuldade: “Sesc, 20h”. Na última, já me prolongando até a página do dia 30, uma citação tão ininteligível quanto: “sobram medíocres na ABL”. Foi a última frase de efeito que consegui anotar das tantas que Moacyr Scliar falou naquela noite. A última, enfim. Aqui, outras tantas: ACADEMIA “Tem muita gente medíocre nas academias, que entram por motivos extra-literários”. POLÍTICA “O sonho da minha geração era o sonho da transformação social”. “A esquerda usou métodos de banditismo, não poderia dar certo. E não deu”. ESCREVER “Quando começamos, somos muito autobiográficos. A palavra ‘eu’ é muito presente em nosso texto”. “O primeiro leitor para quem eu escrevo sou eu mesmo”. “Tem uma tecla que é a grande amiga da literatura, que é a ‘deletar’”. “A gaveta é um estágio interessante. Mas é um estágio temporário, porque o texto na gaveta adoece”. MERCADO LITE...

Morro hoje

Não, não é a carta de um suicida. Mas se fosse, fiquei pensando, o que teria sido minha vida? A história nasce a cada passo, cada letra, em cada gesto, após cada piscadela de olho. Mas dificilmente conseguimos vê-la viva, antes dos livros. Foi por isso que me peguei analisando os fatos, querendo saber o que será lembrado daqui a quinhentos anos e do que ninguém mais ouvirá falar quando for esquecido pela agenda do noticiário. Nasci em uma virada de década que muitos dizem importante: caiu o Muro de Berlim, morreu a União Soviética, presidentes começavam a ler um tal de Fukuyama, o Brasil voltava às urnas. Mas, de fato, minha primeira lembrança marcante é a imagem de Roberto Baggio chutando a bola pra fora na final da Copa de 94, sagrando o Brasil tetra-campeão do mundo, que eu vi numa TV de 17 polegadas enquanto comia a linguiça com farofa que os adultos esqueceram naquele momento de tensão. Naquele mesmo ano de 94, se não me engano, Fernando Henrique, antigo sonho de certa...

Eu também sou Tupinambá!

Sedento de heróis, o Brasil ganhou mais um bandido. Negro, índio, brasileiro, não faz discursos na ONU, não marca gols nem vence corridas. Se esconde no mato, lidera massa e faz pouco barulho. O site da revista Época publicou em matéria do dia 19 deste mês, o perfil do cacique Rosivaldo Ferreira da Silva. Sem ípslons nem dáblios no nome, Babau – como é conhecido – lidera 3 mil tupinambás no sul da Bahia. Sozinho, é acusado de uma dezena de crimes que se resumem ao ataque à propriedade privada da terra. Com sua ficha criminal, o cacique ganhou status de “inimigo público” e é caçado pela Polícia Federal. Os Tupinambás são o povo com quem Pedro Álvares Cabral teve o primeiro contato, na invasão do Brasil, há 500 e tantos anos. Para os brancos donos do terreiro tupiniquim de hoje, que negam o sangue negro e índio que corre em suas veias, os gentis de 1500 já não existem mais. Segundo eles, os tupinambás de cabelo enrolado, pele negra e sobrenome Silva que se movimentam no sul da Bahia não ...

À Revolução das Putas!

Jornais, revistas, rádios, TVs, portais, blogueiros e afins faturaram e continuam ganhando atenções e, portanto, dinheiro, com o bizarro episódio da estudante de minissaia hostilizada na faculdade. Os desdobramentos da notícia sobre o linchamento têm sido inúmeros. Duvido até que ela consiga voltar a assistir aulas tranquilamente antes de a mídia esquecer essa história ou encontrar algo mais constrangedor sobre o que falar. Só assim os curiosos, sedentos de desgraças – como se já não as tivessem em demasia, vão parar de se aglomerar na porta da faculdade da garota, à espera de seu retorno (a memória das pessoas dura enquanto dura uma notícia). Não faltam brasileiros à espreita de uma confusão. Não faltam repórteres à espera de algo chocante. Não falta classe média pronta para apontar o dedo em riste diante de qualquer um. O mundo nos compra enquanto terra livre e harmônica, sem guerras étnicas, conflitos religiosos ou separatismos políticos. Mas a paz no Brasil faz mal. Aqui ninguém...

Estupra, mas não mata!

Dois casos polêmicos envolvendo lideranças da Igreja Católica tomaram os noticiários nas últimas semanas. Não falo das denúncias de pedofilia ou da complacência com políticos corruptos, assuntos tão banalizados quanto os conflitos no Oriente Médio e as trocas de tiros nas favelas brasileiras. Falo do espetáculo de intolerância e obscurantismo dessa mesma instituição tão bem apresentado pelos arcebispos da Paraíba e de Recife e Olinda. O conservadorismo de Aldo Pagotto e José Cardoso Sobrinho nunca foi segredo. Sua subserviência - mais que compreensível - à doutrina que juraram respeitar, também não. Nem de longe, representam a igreja - igreja no sentido de povo - que tinha em homens como dom Hélder Câmara um amigo, um aliado. Hoje, imprensa, movimentos sociais, intelectuais, partidos (de esquerda, ex-esquerda, centro, e tudo mais que tem por aí) repudiam, com toda razão, os dois religiosos pelas atitudes tomadas recentemente. Nada mais legítimo que a sociedade se manifeste contra atent...