Os perigos do pão
Rosalinda largou do trabalho às dezoito e cinco e desceu pra estação correndo. Da Lima Mindêlo ouviu rezando pelo improvável o escândalo dos trilhos, acelerou o passo e quase caiu antes de ter certeza ao virar na Sanhauá de que era mesmo seu tempo partindo. O próximo trem só dali a quarenta minutos. Os meninos estão sem janta e Evilênio sem Rosa. A casa deve estar uma bagunça, a pia entupida de pratos e o balde cheio de roupas.
Rosa não gosta de ler. Também não tem fone de ouvido. O celular, de toda maneira, não toca música. Rosa não tem que estudar para prova nem faz crochê. O caminho sempre é um tédio. Esperar é um tédio maior ainda. Rosa não para. Rosa só trabalha. E tem muito trabalho esperando em casa. E ainda tem que comprar o pão.
A padaria da rua de Rosa fecha cedo por causa dos assaltos. Antes das sete. Leno só come o pão de lá. Se for de outro canto ele reconhece e não come. Mas para Leno pior é ficar sem pão.
É melhor arriscar o de seu Fortes da Padre Azevedo. A coxinha é boa, o pão deve ser.
Rosalinda cruzou a praça dos fretistas para subir pela Barão do Triunfo, seguindo o fluxo de gente, no caminho dos homens gentis. Da cabine bege enferrujada de um caminhão baú um lhe cumprimentou com um assobio. O bêbado caído no canteiro não disse nada, mas esticou a mão. O funcionário que fechava a oficina deu boa noite sorrindo, o dono perguntou se estava perdida, o engravatado cruzando a faixa quis saber dos planos para mais tarde, um boyzinho passou no carro e ofereceu carona, o soldado disponibilizou escolta.
Enfim chegou à padaria.
- Seu Fortes, dois reais de pão.
Com a sacola na mão, desceu pela Padre Azevedo mesmo. Um deserto. Um breu.
Nas ruas do Centro o por do sol impõe seu toque de recolher. Quando a rádio-poste toca a Ave Maria, as lojas descem as portas e os trabalhadores saem correndo. O Terminal de Integração parece um formigueiro. As ruas, filetes de formigas fugindo dos predadores. Depois de trinta minutos, poucas restam fora das grades. Só as retardatárias, as que trabalham à noite e as que se amigam com as cigarras. Numa segunda-feira, isso quase não se vê.
- Passa a bolsa! O celular! O celular! A sacola! Passa tudo!
Da Integração, muita gente viu. E só viu. Quem diabos ia sair para pagar duas passagens? Nem tinha o que fazer. Acabou tudo bem. Os motoqueiros fugiram e Rosa não teve nada. Sem nada, seguiu em paz.
Mas fora-se o último trem.
Rosa tentou ônibus. No primeiro, sequer conseguiu entrar. Deu a hora do segundo, mas nada. Já passava das oito quando Pedro Bola encostou perto da parada.
- Santa Rita! Santa Rita!
Rosa não anda de alternativo, mas abriu uma exceção porque era Bola.
- Menino, que sorte. Hoje nada deu certo.
- Até aqui, minha Linda, porque eu sou o chofer do paraíso.
Longe dos olhares intimidadores, quando sentiu que tinha clima, Pedro se declarou para Rosa. Abriu o coração. Colocou para fora tudo que guardou desde o tempo da escola.
Depois se limpou, entrou no carro e foi embora.
Rosa estava perto de casa. Arrumou o cabelo, sacudiu a roupa, esfregou a cara e foi andando. Encontrou Leno na porta.
- Isso é hora, vagabunda?
Dali para depois nunca lembrou de nada. Pegou no sono e acordou no outro dia de manhã, no chão da cozinha. Leno e os meninos à mesa, tomando café e comendo pão.
É melhor arriscar o de seu Fortes da Padre Azevedo. A coxinha é boa, o pão deve ser.
Rosalinda cruzou a praça dos fretistas para subir pela Barão do Triunfo, seguindo o fluxo de gente, no caminho dos homens gentis. Da cabine bege enferrujada de um caminhão baú um lhe cumprimentou com um assobio. O bêbado caído no canteiro não disse nada, mas esticou a mão. O funcionário que fechava a oficina deu boa noite sorrindo, o dono perguntou se estava perdida, o engravatado cruzando a faixa quis saber dos planos para mais tarde, um boyzinho passou no carro e ofereceu carona, o soldado disponibilizou escolta.
Enfim chegou à padaria.
- Seu Fortes, dois reais de pão.
Com a sacola na mão, desceu pela Padre Azevedo mesmo. Um deserto. Um breu.
Nas ruas do Centro o por do sol impõe seu toque de recolher. Quando a rádio-poste toca a Ave Maria, as lojas descem as portas e os trabalhadores saem correndo. O Terminal de Integração parece um formigueiro. As ruas, filetes de formigas fugindo dos predadores. Depois de trinta minutos, poucas restam fora das grades. Só as retardatárias, as que trabalham à noite e as que se amigam com as cigarras. Numa segunda-feira, isso quase não se vê.
- Passa a bolsa! O celular! O celular! A sacola! Passa tudo!
Da Integração, muita gente viu. E só viu. Quem diabos ia sair para pagar duas passagens? Nem tinha o que fazer. Acabou tudo bem. Os motoqueiros fugiram e Rosa não teve nada. Sem nada, seguiu em paz.
Mas fora-se o último trem.
Rosa tentou ônibus. No primeiro, sequer conseguiu entrar. Deu a hora do segundo, mas nada. Já passava das oito quando Pedro Bola encostou perto da parada.
- Santa Rita! Santa Rita!
Rosa não anda de alternativo, mas abriu uma exceção porque era Bola.
- Menino, que sorte. Hoje nada deu certo.
- Até aqui, minha Linda, porque eu sou o chofer do paraíso.
Longe dos olhares intimidadores, quando sentiu que tinha clima, Pedro se declarou para Rosa. Abriu o coração. Colocou para fora tudo que guardou desde o tempo da escola.
Depois se limpou, entrou no carro e foi embora.
Rosa estava perto de casa. Arrumou o cabelo, sacudiu a roupa, esfregou a cara e foi andando. Encontrou Leno na porta.
- Isso é hora, vagabunda?
Dali para depois nunca lembrou de nada. Pegou no sono e acordou no outro dia de manhã, no chão da cozinha. Leno e os meninos à mesa, tomando café e comendo pão.
